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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Existe salvação fora do Euro?



No actual panorama de crise económica e financeira pela qual estamos a passar, muitos são os que defendem a saída de Portugal da zona euro: uns como salvação, outros como repreenda. No início do ano corrente Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão afirmou numa entrevista ao Financial Times que “todos os países que não consigam consolidar as finanças públicas devem abandonar a zona euro”. Na verdade “der Herr Schäuble” não está mais do que a defender os interesses da economia alemã e francesa, que apesar de terem sido as primeiras a não cumprir com as metas estipuladas para o limite do défice, defendem no entanto a saída da zona euro de países economicamente menos produtivos, esquecendo-se e negando desta forma, os princípios de cooperação mútua entre Estados sobre os quais se fundou a União Europeia.

Com a adesão em 1986 à então chamada CEE, (Comunidade Económica Europeia, actual União Europeia) Portugal passou a beneficiar de um conjunto de fundos comunitários tais como o FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional) ou os fundos oriundos da PAC (Política Agrícola Comum), que tinham como objectivo a convergência económica do país em relação aos restantes Estados-membros. Estes fundos estruturais estabelecidos no ano de integração de Portugal na União, duplicaram em 1989 e duplicaram de novo em 1994. Infelizmente desde 1986 até aos dias de hoje, conseguimos provar mais uma vez que sofremos de uma doença crónica a que podemos chamar “má gestão financeira”. Muitos desses fundos foram aplicados num investimento exagerado em vias rápidas de comunicação, grandes infra-estruturas desportivas inutilizáveis e outros tantos casos polémicos a que temos vindo a assistir, para não falar em todas as ilegalidades que foram realizadas na utilização dos fundos da PAC. Nestes últimos dez anos, Portugal continuou a receber continuamente mais do que as receitas que pagou à União Europeia, tendo por exemplo recebido no ano de 2008 cerca de 4000 milhões de euros contra os 1500 milhões de euros que pagou à U.E (fonte Banco de Portugal). Actualmente, o QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) tem uma dotação de fundos para Portugal de 21,5 mil milhões de euros para o período 2007-2013, que a ver, deverão ser investidos da melhor forma possível. No entanto, apesar de todos estes financiamentos e de outras políticas, a nossa economia tem tido uma trajectória de divergência em relação à média comunitária: se em 2001 o PIB Português per capita era de 77.3% dessa média, em 2007 já só era 76.2%.

No que toca à Zona euro, ou seja, ao conjunto de Estados-membros em que a moeda oficial é o Euro, Portugal é membro de pleno direito desde a sua formação em 1999, tendo sido obrigado a cumprir cinco critérios previstos no Tratado de Maastricht, assinado em 1992:

1 – Défice abaixo dos 3% do PIB;

2 – Dívida Pública abaixo dos 60% do PIB;

3 – Nível de inflação que não ultrapasse em 1,5% a média das três melhores economias;

4 – Nível de taxas de juro que não ultrapasse em 2% a média das três melhores economias;

5 – Não existir qualquer desvalorização nessa economia nos últimos dois anos.

Com a entrada para a zona euro, Portugal, transfere a sua soberania sobre a política cambial e monetária para as instituições da União, restando-lhe apenas a autonomia na tomada de decisões em relação a política orçamental. Deixa por exemplo de poder regular a oferta de massa monetária, função esta que passa a ser desempenhada unicamente pelo Banco Central Europeu (BCE) sediado na Alemanha. Apesar de tudo, é pelo facto de pertencer à zona euro, que Portugal continua a beneficiar de uma reduzida inflação e taxa de juro.

A verdade é que, não temos sabido utilizar os fundos comunitários que recebemos nem sabido explorar da melhor forma possível o livre mercado de capitais da zona euro para poder expandir as nossas exportações. O Estado português ao longo da última década tem gasto acima das suas possibilidades e nada tem feito para reverter esta situação, como tal, a dívida pública que hoje observamos não é mais do que o culminar de um conjunto de anos deficitários e de endividamento. A taxa de juro aplicável à divida pública (em dez anos) já se encontra nos 7% devido à fraca produção, a insegurança na nossa economia e à instabilidade política do país que resulta de todo o jogo nojento praticado pelo bloco central e do teatrinho de péssima qualidade que o PSD insiste em encenar.

É então a saída da Zona Euro, e o retorno à soberania monetária o escape que solucionará os nossos problemas? Claramente que não. Mesmo que saíssemos da zona euro e pudéssemos desvalorizar a nossa moeda a fim de baixar os preços dos nossos produtos, que desta forma se tornariam mais competitivos e propícios à exportação, não nos podemos esquecer de alguns aspectos muito importantes: para exportar é necessário produzir, investir e ter mercados para a exportação. Assim sendo, a nossa economia estaria sempre dependente dos mercados externos que são instáveis. Com o reajuste cambial dos preços, a população perderia automaticamente poder de compra, na medida em que os salários seriam desvalorizados e no contexto de uma Europa a 27 a diferença salarial seria ainda maior. Quando falamos em desvalorizar a moeda, não nos podemos esquecer que também as importações vão sofrer um aumento dos seus custos, e assim sendo, num país em que 80% dos cereais consumidos são importados, qual é o impacto social que daí advém? É claro que o aumento de grande parte dos preços dos produtos de alimentação leva a um efeito de pressão social e crise económica muito mais forte do que aquela que já estamos a viver.



A solução não é então fugir dos nossos problemas ou abandonar a zona euro, mas sim corrigir e combater as políticas financeiras que se têm tentado implementar na Europa através do Banco Central Europeu e dos interesses das grandes potências europeias capitalistas. É necessário corrigir a política económica europeia que apenas defende os interesses dos mais desenvolvidos e substitui-la por uma outra que consiga fazer face à recessão em prol do progresso e recuperação económica de todos os Estados-membros sem distinção.

sábado, 16 de outubro de 2010

O Tigre já nem mia


A actual crise económico-financeira irlandesa vem quebrar abruptamente o veloz crescimento económico que o país registava desde a década de 80.

Antes da década de 70, a par dos países Ibéricos (Portugal e Espanha) e da Grécia, a Irlanda era um dos países europeus mais atrasados quer ao nível tecnológico, quer ao nível económico e social, sendo a sua economia baseada na agricultura e numa indústria pouco desenvolvida. Até então, todas as potencialidades a explorar do sector terciário ainda não haviam sido exploradas. No entanto, tal como todos os países menos avançados tecnologicamente, a Irlanda pôde aproveitar o processo de catching-up, ou seja, do facto de ser menos avançado tecnologicamente para poder crescer mais depressa adoptando tecnologias estrangeiras a custo relativamente baixo. Complementando este processo de desenvolvimento tecnológico, a integração na CEE (1993) e no Sistema monetário Europeu (1978), numa época de intensa liberalização económica, possibilitou relançar a economia celta.

Porém, há que salientar que o componente mais determinante na reviravolta do crescimento económico irlandês a partir da década de 80, foi o forte investimento directo estrangeiro de Multinacionais que passaram a sediar-se em Dublin, não só pela Irlanda ser um país anglo-saxónico, mas principalmente por existir capital humano qualificado e com um nível salarial baixo. Tudo isto conjugado com uma política incentivadora de investimento externo, uma política fiscal credível e uma crescente rede de transportes e infra-estruturas por todo o país, tornou a Irlanda um destino privilegiado para as grandes Multinacionais e agências Financeiras.

O Tigre celta mostrava pujança na sua economia, tendo sido no período de 1986-96 o membro pertencente a OCDE com maior taxa de crescimento do Produto e registando no período de 1994-1998 um crescimento do PIB de 8.8% (Fonte Eurostat 1999).

Mas então o que originou a actual crise económico-financeira pela qual o país está a passar? Bom, a resposta é simples: especulação imobiliária. A par dos EUA, também a Irlanda assistiu a uma sobrevalorização extraordinária de imóveis que não correspondia ao valor real destes. Em 2002, um apartamento no centro histórico de Dublin chegava a ser mais caro que no centro histórico de Londres. O negócio imobiliário foi lucrativo para várias pessoas e empresas até ao momento em que os imóveis deixaram de ser vendidos e os empréstimos concedidos para este tipo de actividade (que não é económica pois não gera riqueza) de ser pagos, o que levou consequentemente à falta de liquidez por parte de empresas financeiras, nomeadamente dos Bancos. Para minimizar os prejuízos estas empresas financeiras foram obrigadas a vender na bolsa, acções desvalorizadas de outros negócios que pudessem ter.

É esta falta de liquidez que será resolvida quando se injectarem os 50 mil milhões de euros que vão salvar os chamados bancos tóxicos tais como o Allied Irish, o Irish Nationwide ou o Anglo Irish, banco preferido dos promotores imobiliários que levavam a cabo a especulação imobiliária que culminou na chamada “Bolha imobiliária”. E como sempre serão os contribuintes a pagar a conta das irresponsabilidades dos Bancos. E esta conta é cara. São 50mil milhões de euros que vão pesar no bolso das famílias e vão disparar o défice orçamental de 12% para 32% do PIB (o défice mais elevado no contexto da Europa a 27).

Quando um Estado Independente fica falido de uma forma tão suei gene ris, alguma lição deve apreender. Um delas é não ter excessiva confiança nos preços do imobiliário, pois logo que os imóveis desvalorizem, a receita cai. Quanto às consequências deste desastre financeiro, elas já estão à vista, não só à vista estão como foram oficialmente enumeradas pelo ministro irlandês das Finanças, Brian Lenihan.

As contas públicas devem ser postas em ordem, e como infelizmente a Irlanda não goza da mesma sorte que o seu vizinho Reino Unido, não pode desvalorizar a moeda, o que quer dizer que deve seguir as ordens do FMI: cortes radicais na despesa pública à par dos PIGS (Portugal, Ireland, Greece, Spain). Há alguns dias foi apresentado o PEC irlandês que tem como objectivo a qualquer custo, a diminuição dos actuais 32% de défice para 3% em 2014, crescimento económico sustentados nas exportações e mais cortes na despesa pública. Adivinham-se dias difíceis para os irlandeses, que tal como nós vão enfrentar o desemprego, cortes salariais, aumento de impostos, aumento da carga horária de trabalho, aumentos dos encargos com a saúde, transportes e educação, como uma realidade de um novo período, não de recuperação económica mas sim de retracção.



Mais uma vez por uns pagam outros, os responsáveis pelos irresponsáveis, os justos pelos injustos. Até quando? Parece que o tigre celta adormeceu.



Escrito por Reinaldo Miranda