Há quem diga que uma imagem vale mais do que mil palavras, ou que uma fotografia é a captação dogmática da realidade...Discordo!
Dizem também que a imagem permanece para a eternidade, mas o que é a imagem se não há entendimento dela, se não existe observação, se não há Homem com vida?
E é sentado, contemplando o rio defronte que mergulho nestas deambulações mentais. É nesta Lisboa que me alieno da realidade, ao menos tento, e procuro observar, de forma imparcial, a molécula da vida.
Este rio prende-me ao mesmo tempo que oiço vozes, tilintares de colheres, pratos no balcão, hu hu o batido está pronto, a campainha toca: - Heii, sai um batido para a mesa 3.
O rio é enorme, soberbo ele, mas nem por isso é mais frenético que estes 30 metros que me rodeiam. E que bom que o são assim, estes 30 espaços medidos em formas geométricas.
Nesta ebolição de vida acalmo-me, nesta Lisboa que tem de ser vivida e descrita por palavras, respiro!
Pois não vivo numa imagem em pausa, vivo na vida da imagem, vivo na realidade daquilo que capturo com as minhas duas esferas sensasoriais e de nenhuma outra forma arrisco-me a viver.
Amo Lisboa, é certo; amo-a por tão bem ficar no quadro da minha sala, mas ainda mais por eu fazer parte dela.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Caixinha das surpresas!

Está cheia, a caixa das surpresas.
Caixa que quer dar, oferecer, agradar.
Surpreender, alegrar, caixa média a caixa das surpresas.
A caixa que não se quer conter; quer esbanjar, ejacular, soltar, livrar.
Caixa vazia, a caixa das surpresas.
A caixa quer soltar, a caixa quer esvaziar.
A caixa é altruísta, a caixa gosta de dar, a caixa não gosta de guardar.
A caixa transporta o que é seu para o exterior,
A caixa transfere-se e não sobra em si.
Pobre caixa, a caixa vazia.
A caixa não tem defesas e julga-se feliz.
A caixa tem buracos, é assaltada e nada diz.
Pobre caixa que se julga feliz!
E em vez de se emendar ela,
pobre caixa,
nada faz.
Continua a se esvaziar, a pobre caixa
que não para jamais.
E eu sinto-me vazio, pobre eu, pobre caixa, que já nada tenho, e para mais... bom já não há o que há esvaziar.
Dei o que tinha a dar e vazio sem nada a preencher, porque não voltar a encher?
Não a caixa, caixa minha que não tem fundo, mas a caixa do caixão e pensar que afinal não morri em vão!
Caixa que quer dar, oferecer, agradar.
Surpreender, alegrar, caixa média a caixa das surpresas.
A caixa que não se quer conter; quer esbanjar, ejacular, soltar, livrar.
Caixa vazia, a caixa das surpresas.
A caixa quer soltar, a caixa quer esvaziar.
A caixa é altruísta, a caixa gosta de dar, a caixa não gosta de guardar.
A caixa transporta o que é seu para o exterior,
A caixa transfere-se e não sobra em si.
Pobre caixa, a caixa vazia.
A caixa não tem defesas e julga-se feliz.
A caixa tem buracos, é assaltada e nada diz.
Pobre caixa que se julga feliz!
E em vez de se emendar ela,
pobre caixa,
nada faz.
Continua a se esvaziar, a pobre caixa
que não para jamais.
E eu sinto-me vazio, pobre eu, pobre caixa, que já nada tenho, e para mais... bom já não há o que há esvaziar.
Dei o que tinha a dar e vazio sem nada a preencher, porque não voltar a encher?
Não a caixa, caixa minha que não tem fundo, mas a caixa do caixão e pensar que afinal não morri em vão!
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Revolução

«Os tempos daquela superstição que atribuía as revoluções à descrença de uns tantos agitadores já passaram. Cada qual sabe agora onde quer que haja uma covulsão revolucionária, que existe no fundo de tudo isso qualquer necessidade social que as instituições viciadas impedemque seja satisfeita. A necessidade não pode ser muitas vezes expressa com precisa violência para se lhes outorgar um êxito imediato, mas qualquer tentativa de repressão pela força a tornará cada vez mais poderosa, até conseguir fazê-la romper todos os seus entraves. Se formos então derrotados, não temos mais nada a fazer do que recomeçar novamente tudo de princípio.
E, felizmente, o breve intervalo que nos concedem entre o final do primeiro e o princípio do segundo acto do movimento, dá-nos tempo para realizar uma parte interessante da obra: o estudo das causas que produziram a prévia comoção e a sua derrota, as causas que não deverão ser procuradas nos acidentais esforços, talentos, faltas, erros ou traições de alguns chefes, mas antes no estado social geral e nas condições de existência de cada uma das nações agitadas.»
Karl Marx, «Revolução e Contra-revolução»
quarta-feira, 30 de junho de 2010
O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.
Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.
Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira-mar o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?
Ricardo Reis
sábado, 26 de junho de 2010
Cinzento tóxico
Estaco.
O verde fresco e pesado que deixei à pressa já não é o mesmo; é cinzento tóxico. Aquele pequeno rectângulo que outrora conhecia tão bem, hoje é trapézio irregular. Tudo disforme de uma irregularidade que nunca conheci.
Estaco e continuo imóvel.
Invadem-me a memória os instantes que em que tudo começou, o momento em que fui obrigado a abandonar a minha vida sem sequer poder olhar para trás. Estava sentado à mesa, era hora de jantar quando a primeira bomba caiu. Arrancaram-me a infância à força. Caiu mais uma, também eu caí. E mais uma bomba, caiu o mundo a meus pés. Aprendi com o tempo que as lembranças têm sons e cheiros e são eternas na medida em que se podem repetir infinitamente durante uma vida que por mais contraditória que seja, é finita. De um momento para o outro choviam bombas que rebentavam em explosões qual trovões e trovoadas de uma chuva equatorial. Seguiram-se os disparos, rajadas de metralhadoras, tropas a invadir a vila, frotas de tanques, lances de granadas, gritos, tiros, gemidos, silvos, berros, o marchar ordenado do exército, a recepção sumptuosa da morte.
E por mais que queira não consigo apaga-las. Como disse, as memórias são eternas, e as minhas para além de visualiza-las e senti-las também as posso provar; são ácidas.
A terra que encontro não é a mesma que deixei, hoje é habitada por sombras de entes já não existentes, é cidade fantasma, vulto do passado, ranhura no espectro temporal.
Oh tomara atravessá-la e trazer para o presente o passado inexistente. Tomara regressar à inocência da infância, ao carinho do colo de minha mãe, às brincadeiras de mocidade, tomara reviver do princípio ao fim ou do fim ao princípio como nos possibilita a dita palavra, todos os amores da minha juventude que coloriam a minha vida, a minha vila.
Mas agora ela é cinzenta-tóxica tal como a minha vida.
Hoje não sou verde esperança, sou cinzento imundo. A estrada terminou, faço a viagem de regresso assim como o salmão regressa à casa quando vê a vida escapar-lhe. Mas nem o regresso me torna mais verde, continuo intoxicado.
Dirijo-me ao repouso eterno de meus pais. Ali estão sob a frieza das lápides e a aspereza de outras tantas flores já murchas. A vida dá-nos tantas oportunidades de sermos felizes, mas na ilusão de vivermos uma vida eterna colorimos a nossa vida de tóxico e envenenamo-nos de cinzento. Preciso de ti mãe.
Como sempre, tens um lugar junto do teu leito. Cavo a minha campa, deito-me.
Purifico-me de verde com o tempo e eternamente, estaco.
O verde fresco e pesado que deixei à pressa já não é o mesmo; é cinzento tóxico. Aquele pequeno rectângulo que outrora conhecia tão bem, hoje é trapézio irregular. Tudo disforme de uma irregularidade que nunca conheci.
Estaco e continuo imóvel.
Invadem-me a memória os instantes que em que tudo começou, o momento em que fui obrigado a abandonar a minha vida sem sequer poder olhar para trás. Estava sentado à mesa, era hora de jantar quando a primeira bomba caiu. Arrancaram-me a infância à força. Caiu mais uma, também eu caí. E mais uma bomba, caiu o mundo a meus pés. Aprendi com o tempo que as lembranças têm sons e cheiros e são eternas na medida em que se podem repetir infinitamente durante uma vida que por mais contraditória que seja, é finita. De um momento para o outro choviam bombas que rebentavam em explosões qual trovões e trovoadas de uma chuva equatorial. Seguiram-se os disparos, rajadas de metralhadoras, tropas a invadir a vila, frotas de tanques, lances de granadas, gritos, tiros, gemidos, silvos, berros, o marchar ordenado do exército, a recepção sumptuosa da morte.
E por mais que queira não consigo apaga-las. Como disse, as memórias são eternas, e as minhas para além de visualiza-las e senti-las também as posso provar; são ácidas.
A terra que encontro não é a mesma que deixei, hoje é habitada por sombras de entes já não existentes, é cidade fantasma, vulto do passado, ranhura no espectro temporal.
Oh tomara atravessá-la e trazer para o presente o passado inexistente. Tomara regressar à inocência da infância, ao carinho do colo de minha mãe, às brincadeiras de mocidade, tomara reviver do princípio ao fim ou do fim ao princípio como nos possibilita a dita palavra, todos os amores da minha juventude que coloriam a minha vida, a minha vila.
Mas agora ela é cinzenta-tóxica tal como a minha vida.
Hoje não sou verde esperança, sou cinzento imundo. A estrada terminou, faço a viagem de regresso assim como o salmão regressa à casa quando vê a vida escapar-lhe. Mas nem o regresso me torna mais verde, continuo intoxicado.
Dirijo-me ao repouso eterno de meus pais. Ali estão sob a frieza das lápides e a aspereza de outras tantas flores já murchas. A vida dá-nos tantas oportunidades de sermos felizes, mas na ilusão de vivermos uma vida eterna colorimos a nossa vida de tóxico e envenenamo-nos de cinzento. Preciso de ti mãe.
Como sempre, tens um lugar junto do teu leito. Cavo a minha campa, deito-me.
Purifico-me de verde com o tempo e eternamente, estaco.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
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